O problema da terceira pessoa

O problema da terceira pessoa

André Neves

ilustração de uma árvore ao vento em tons de cinza

Não sei o que mais me chamou atenção naquele dia, se foi a cena em si ou sua repercussão no íntimo do meu ser.
Eu tinha cerca de 16 anos e estava no transporte público indo em direção aos meus estudos quando, em determinado momento, minha condução parou em frente a um hospital em um plano inclinado. Era uma ladeira suave, mas íngreme o suficiente para necessitar de um esforço extra para subi-la.
Por alguns minutos, que para mim pareceram horas, o coletivo ficou parado e eu, que milagrosamente havia conseguido um lugar sentado, olhei para a janela.
Do outro lado da rua eu vi uma cena corriqueira que para sempre alterou meu ser. Um homem feito empurrava uma cadeira de rodas com uma senhora ladeira acima. Ele se esforçava muito, pois a calçada estava totalmente quebrada e ele tinha que fazer grande esforço. Às vezes tinha que prender a roda e ir à frente da senhora e puxar a cadeira para ela se desvencilhar de algum obstáculo maior. Ele sorria tentando esconder o esforço da senhora e ela sorria de volta aparentando desconforto de ter que fazer aquele homem passar por aquilo.
Neste momento não consegui não pensar em como fortunas são dedicadas a coisas fúteis quando coisas essenciais e necessárias para a dignidade humana são ignoradas.
Pensei comigo como um político pode ser corrupto se causa tanto sofrimento as pessoas. A única coisa que me vem à mente é porque eles sempre pensam na terceira pessoa. São sempre eles e nunca nós, e por isso roubam. Se fosse sua mãe ou seu irmão naquela situação eles não o fariam e governariam para o povo.
Naquele momento eu vi todas as pessoas que amo naquela senhora e a mim mesmo empurrando aquela cadeira e não consegui não deixar uma lágrima cair, naquele momento era minha mãe e eu, meu irmão e meu sobrinho, minha irmã e meu pai e quando se trás para a primeira pessoa você não consegue ficar impassível diante de uma cena absurda como aquela.
Eu desci do ônibus, atravessei a rua e ajudei aquelas pessoas que agora eram minha família. Perdi uma prova, mas não perdi minha humanidade.
Perdemos a capacidade de olhar através dos olhos dos outros, nos distanciamos cada vez mais, mas precisamos desenvolver este dom para caminhar para um mundo melhor.
Somos nós, não são eles.