No quarto mais escuro – Capítulo 01

Capítulo 01



O estalo

Senti um estalo, mas a dor já era tão grande que esta nova se misturou as demais.
Meu ombro doí, parece deslocado devido à força que fui atirado no chãs após ter minhas mãos amarradas as costas.
Meu olho esquerdo esta tão inchado que mal consigo enxergar e somente percebo sombras através de uma cortina embaçada.
Estou no chão da sala da minha casa que não parece mais minha, meu santuário foi violado e isto me causou tanta estranheza quanto terror.
Eu ouvia os gritos de minha mulher e filha sendo arrastadas para longe de mim enquanto monstros fedendo a bebida barata riam e se divertiam com o terror delas.
Um velho barbudo e mal cheiroso apontou para mim e falou:
_ Tragam este traste aqui!
Seus capangas me arrastaram pelos braços. A dor era tanta que pensei que ia desmaiar. Meu ombro estava fora do lugar e somente pele e músculos impediam meu braço de ser arrancado. A dor era terrível quando fui erguido na frente dele.
Eu já havia sido espancado e ferido ao extremo. Meus braços e pernas foram chutados com grossas botas a ponto de eu não conseguir dominar mais os movimentos. Minha bexiga se esvaziou e eles riram ainda mais de mim. Não tenho orgulho de dizer, mas também não tenho motivos para esconder nada.
O velho riu com seus dentes destruídos e seu hálito pútrido e apontou para mim dizendo:
_ Isto é o que você ganhou por ser quem você é!
Ser quem eu sou, mas quem eu sou? Nunca consegui saber ao certo. Sempre fui um mar de incertezas e tentei esconder o que sentia, mas principalmente todas as coisas surreais que presenciava. Sempre tive medo de ser internado em um manicômio, pois não era normal ver e fazer o que eu fazia.
Fui retirado de meus pensamentos e tudo ocorreu muito muito rápido. Ele me deu um tapa no rosto com as costas da mão endurecida e puxou uma faca. Puder ver impotente por meu olho destruído apenas um flash, mas meu olho ainda bom me mostrou o que ia acontecer e somente consegui me encolher um pouco antes da faca perfurar pele e músculo e se encravar no meu abdômen. Senti um arrepio quando a lâmina perfurava. Ouvi minha família gritando e sendo levada cada vez mais distante e eu sendo arrastado para o outro lado da sala.
Estava deixando um rastro de sangue e em meio a gritos e risadas ouvi o velho dizer:
_ Tirem este desgraçado de minha vista!
Eles me levaram até um pequeno quarto que ficava no corredor e me jogaram como um trapo humano. Eu bati com o corpo no chão de cimento frio com força e a porta foi fechada. Me sentia fraco e os sons foram abafados meu choro também foi abafado.
Tentei erguer os braços para me apoiar, mas não tinha forças ou controle dos meus membros. Tentei alcançar o interruptor, mas não conseguia. Esta impotente no escuro profundo.
Aquela escuridão me causou uma falta de ar e frio. Era como seu uma presença me acompanhasse naquele quarto escuro. Algo sombrio me aguardava em meio aquela escuridão. Algo que eu já me havia me esquecido e que já havia fugido antes.
O sangue estava deixando meu corpo e eu estava me entregando a inevitabilidade de minha morte.
Ia deixar o mundo e minha única companhia era a escuridão que me apavorava. Estava a aterrorizado, impotente e com medo. E do lugar mais distante de minha mente veio como um mantra e comecei a repetir incessantemente:
_ Isto não esta acontecendo… Isto não esta acontecendo… Isto não esta acontecendo…