Não resista aos pensamentos ruins, apenas perdoe

Não resista aos pensamentos ruins, apenas perdoe

 

André Neves

 

Existem coisas que acontecem e a gente não sabe como explicar.

Ontem a noite estava indo para casa e um pensamento contaminante veio a minha mente. Já era noite e a lembrança de um evento ocorrido oito anos antes veio e não consegui me desvencilhar dele. Você pode se impressionar de algo de tanto tempo incomodar tanto, mas todos nos vemos, por vezes, contaminados por pensamentos invasores do passado.

Há mais ou menos a oito anos eu estava de moto indo para o trabalho e em uma grande avenida do Rio de Janeiro e me deparei com um engarrafamento. Por uma simples distração acabei demorando demais para apertar o freio e esbarrei na moto que estava na minha frente.

Era uma Harley-Davidson preta com um adesivo de um grupo famoso de motoqueiros. Lembro claramente rosto do senhor que desceu, agarrou meu braço e começou a me agredir verbalmente.

Fiquei desnorteado, pois havia encostado na borracha do pneu e nenhum dano foi causado e aleguei que não precisava me segurar, pois estava parado. Ele se irritou com minha calma e me agrediu com cinco socos no braço. Surpreso perguntei porque ele estava me agredindo, pois se houvesse algum dano a moto eu pagaria e ele respondeu que não queria dinheiro.

Então o que ele queria? Ele queria agredir alguém, queria violência e arrumou um alvo e mesmo sem ter tido nenhum motivo ele me agrediu.

Eu não revidei agressão, apenas absorvi os golpes, pois seria covardia revidar a agressão de um homem descontrolado.

Acabou a confusão e ele foi embora voltando para sua vida, mas esta lembrança por vezes voltava a minha mente e eu voltava no tempo para os momentos em que isto aconteceu revivendo o momento e me contaminando com a sensação destrutiva do momento.

Ontem aconteceu, mais uma vez, do pensamento vir me assombrar, mas eu tive um comportamento diferente. Ao invés de ficar revirando o acontecido e ou tentar resistir ao pensamento eu imaginei a seguinte cena.

Eu estava de frente para meu agressor e o encarava como um amigo e explicava que tudo aquilo aconteceu por um mal dia e que tudo havia passado. Em meus pensamentos o abracei e desejei uma boa e feliz vida e o perdoei de coração. E depois soltei esta lembrança e a deixei fluir.

Esta seria mais uma história, mas hoje aconteceu algo que no mínimo posso descrever como intrigante.

Estava indo de moto para o trabalho e ao olhar para meu lado eu vi o mesmo motoqueiro, já com a barba e cabelos totalmente brancos ao meu lado. Era o mesmo motoqueiro na mesma moto e encontrei-o no mesmo quarteirão do primeiro encontro.

Olhei para ele e ele olhou para mim e acredito que houve um reconhecimento mútuo, mas principalmente um sinal divino de que tudo havia sido resolvido.

O perdão me libertou e se posso dar um conselho para todos, eu digo, não resista aos pensamentos ruins, apenas perdoe.

No quarto mais escuro – Capítulo 01

Capítulo 01



O estalo

Senti um estalo, mas a dor já era tão grande que esta nova se misturou as demais.
Meu ombro doí, parece deslocado devido à força que fui atirado no chãs após ter minhas mãos amarradas as costas.
Meu olho esquerdo esta tão inchado que mal consigo enxergar e somente percebo sombras através de uma cortina embaçada.
Estou no chão da sala da minha casa que não parece mais minha, meu santuário foi violado e isto me causou tanta estranheza quanto terror.
Eu ouvia os gritos de minha mulher e filha sendo arrastadas para longe de mim enquanto monstros fedendo a bebida barata riam e se divertiam com o terror delas.
Um velho barbudo e mal cheiroso apontou para mim e falou:
_ Tragam este traste aqui!
Seus capangas me arrastaram pelos braços. A dor era tanta que pensei que ia desmaiar. Meu ombro estava fora do lugar e somente pele e músculos impediam meu braço de ser arrancado. A dor era terrível quando fui erguido na frente dele.
Eu já havia sido espancado e ferido ao extremo. Meus braços e pernas foram chutados com grossas botas a ponto de eu não conseguir dominar mais os movimentos. Minha bexiga se esvaziou e eles riram ainda mais de mim. Não tenho orgulho de dizer, mas também não tenho motivos para esconder nada.
O velho riu com seus dentes destruídos e seu hálito pútrido e apontou para mim dizendo:
_ Isto é o que você ganhou por ser quem você é!
Ser quem eu sou, mas quem eu sou? Nunca consegui saber ao certo. Sempre fui um mar de incertezas e tentei esconder o que sentia, mas principalmente todas as coisas surreais que presenciava. Sempre tive medo de ser internado em um manicômio, pois não era normal ver e fazer o que eu fazia.
Fui retirado de meus pensamentos e tudo ocorreu muito muito rápido. Ele me deu um tapa no rosto com as costas da mão endurecida e puxou uma faca. Puder ver impotente por meu olho destruído apenas um flash, mas meu olho ainda bom me mostrou o que ia acontecer e somente consegui me encolher um pouco antes da faca perfurar pele e músculo e se encravar no meu abdômen. Senti um arrepio quando a lâmina perfurava. Ouvi minha família gritando e sendo levada cada vez mais distante e eu sendo arrastado para o outro lado da sala.
Estava deixando um rastro de sangue e em meio a gritos e risadas ouvi o velho dizer:
_ Tirem este desgraçado de minha vista!
Eles me levaram até um pequeno quarto que ficava no corredor e me jogaram como um trapo humano. Eu bati com o corpo no chão de cimento frio com força e a porta foi fechada. Me sentia fraco e os sons foram abafados meu choro também foi abafado.
Tentei erguer os braços para me apoiar, mas não tinha forças ou controle dos meus membros. Tentei alcançar o interruptor, mas não conseguia. Esta impotente no escuro profundo.
Aquela escuridão me causou uma falta de ar e frio. Era como seu uma presença me acompanhasse naquele quarto escuro. Algo sombrio me aguardava em meio aquela escuridão. Algo que eu já me havia me esquecido e que já havia fugido antes.
O sangue estava deixando meu corpo e eu estava me entregando a inevitabilidade de minha morte.
Ia deixar o mundo e minha única companhia era a escuridão que me apavorava. Estava a aterrorizado, impotente e com medo. E do lugar mais distante de minha mente veio como um mantra e comecei a repetir incessantemente:
_ Isto não esta acontecendo… Isto não esta acontecendo… Isto não esta acontecendo…